
quando nascemos, ah quando nascemos. quando nascemos acontece uma coisa curiosa; estamos diante da vida que sempre desejamos ter, rompemos com o território que, mesmo pequenininho, nos protege, nos alimenta. eu tenho uma ideia bem fixa na cabeça que o anel de saturno nada mais é que os muros de uma casa ou o corpo da pessoa que gesta outra. quando nascemos, esses anéis se quebram, passamos para a consciência de a partir daqui, começam os desafios. começa a ouvir os barulhos do mundo, as sensações dos outros, ainda tão vítima em potencial de tudo. liberdade custa muito. custa começar ainda muito frágil. veja bem, pense aí, toda liberdade começa assim. se você sai da casa dos pais e começa uma vida em sua casa, as vezes passa pela casa e percebe que ainda não tem panela de pressão e terá de arrumar para cozinhar os feijões. talvez não tenha tantos armários como na casa da sua avó e talvez não tenha muitas outras coisas que você se acostumou a ter ao seu redor. começa lá no útero, quando a parede, o muro que divide você do mundo dos outros, se rompe. você nasce, correndo risco de nesse nascer e alguma coisa morrer. a esperança por exemplo, é uma coisa que pode morrer e voltar encarnada em uma conversa com alguém que já rompeu muitos e muitos muros na vida. encenou e reencenou várias vezes uma mesma partida, mas, a cada vez que precisou vir a luz de novo, veio com uma nova experiência. crianças, bebês nos ensinam que fomos moles para passar por porta pequena. que as vezes mudamos de tamanho, ficamos mais frágeis porque iremos passar pro uma porta que requer memória, para atravessar.
…vamos encontrar toalhinhas cheias de lágrimas guardadas em uma gaveta como lembrança de um tempo em que voltei para algum útero. respostas pelos fins que já tivemos. mercúrio e vênus conjuntos em escorpião até quarta feira(07/10) e a lua mingua em leão até lá também.
ganhar impulso para nascer mesmo com notícias de fins, de desesperança. siga.
Marcelle, Papo de Saturno
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