
O inverno, a umidade no solo, os dias mais curtos, as noites mais longas e um convite a procurar se entender com a própria escuridão. Talvez você precise desse espaço ínfimo, de tão pequeno ser, que você consegue olhar você e você. Lembro quando li e entendi o significado da palavra ínfimo pela primeira vez. Foi em um dos livros do Manoel de Barros, onde ele diz “no Pantanal ninguém passa régua”. Ou coisa parecida. Não sei. Mas foi com ele. Essa coisa de ficar pensando na utilidade da folha, na utilidade dos caramujos e na vida dos insetos. Se preocupar em se aquecer, em concentrar um líquido quente qualquer dentro de você. Essa vontade de passar um tricô no coração e colocar uma toquinha nele, caso dentro desse coração tenha uma cabeça que cisme em querer fazer parte de uma anatomia que não deveria. O inverno é essa coisa escura, tão escura, tão profunda como um buraco negro na galáxia que nos faz ser pequenos outra vez, como uma criança no útero, mas protegidos por algo maior. Será a barriga de quem carrega um bebê é uma espécie anel de Saturno? Todos os incômodos surgem agora. Agora está a semente mais fértil do ano. A copulação da vida e é por isso que arrastamos móveis, para lá e para cá, no intuito de fazer caber em algum espaço. Por um tempo, iremos caber, mas em breve vai nascer. Vai nascer e, em algum momento, perecer e, de repente, é inverno de novo. Nessa hora, a anciã aceita sua oferenda, seu cuidado com sua pele, seu cuidado com seu alimento. ~não há nenhum rito mais poderoso nesse momento, que saber lidar com esse espaço “ínfimo” que há no tempo, que nos cala, que nos esfria, como uma água na cabeça que estava muito quente. Não é tempo de buscar mostrar. É tempo de buscar crescer internamente, em segredo, até apontar no céu o momento de colocar a cabeça para fora, abrir as pernas da vida e descobrir que se tornou a própria perna da vida. Tem dias que não adianta o guarda-chuva. As vezes está chovendo muito e você vai precisar esperar passar. O inverno é um eterno esperar a chuva passar. A chuva está entrando dentro do chão e fecundando coisas que estão por vir.O que quero lhe dizer que o guarda chuva sim, seria a proteção para em dias de chuva. Mas em alguns dias, é preciso simplesmente entender que nem o guarda chuva pode com a chuva. A chuva é chefe do guarda chuva. O guarda chuva é uma das maneiras de você conhecer a chuva a ponto de saber que você não pode nem protegido. As vezes é sobre não sair. Remarcar. Atender aos pedidos da chuva, do vento, da intuição.
“Desde o começo do mundo água e chão se amam. E se entram amorosamente e se fecundam. Nascem peixes para habitar os rios. E nascem pássaros para habitar as árvores. As águas ainda ajudam na formação dos caracóis e das suas lesmas. As águas são a epifania da criação.”
Manoel de Barros no Livro “Menino do mato”
Talvez estejas devolvendo para a terra algumas coisas por esses dias, para amadurecer sua relação com o tempo. Não cries picuinhas com o tempo. Não queira consertar o que não te acolhe.
Vá você, para esse lugar de significância que é estar nesse escuro onde ninguém vê, como um lagarto que se camufla no caule de uma árvore. Como uma rã debaixo de uma vitória-régia. Sabe quando você corta um pedaço de uma plantinha e coloca em um vaso com água para a raiz crescer até que consiga plantar? Faz sua merenda da vida, pega sua porção, investe e espera até que as pontas das raízes chamem pela terra. Invista em você e não em se defender de quem não investe em você, mesmo que devesse investir.
A lua está crescente em libra até as 03:43 da manhã quando ingressa em escorpião e nesse signo ficará até o o dia 26 de junho.
Marcelle, Papo de Saturno
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Na imagem: ” Educação da tristeza, Valter Hugo Mãe”